Rakuzan
Eu vejo a verdade se esconder atrás de paredes
e vejo os sonhos se perderem a cada passo.
Eu vejo um condenado gemer atrás de grades
e entendo o que digo, mas não compreendo o que faço.
Eu persegui mentiras para ter contradição,
mas nada encontrei, exceto a perda da razão.
Eu mostrei caminhos aos mais jovens
mas não me preocupei em segui-los.
Eu encontrei pintores e filósofos
que conheciam as dificuldades do caminho.
Eu fechei cada porta que ficava pra trás
e encarei cada fato que estava escondido.
Eu procurei Deus e o chamei de filho.
Ele me procurou e me chamou de perdido.
Ele criou tudo e de tudo sabia, na teoria,
mas não quis compreender a vida, prática, que me afligia.
Eu vejo uma santa chorando no altar
e percebo um trem que corre sobre o mar.
Eu esqueço todos os mortos pelo caminho
e choro apenas por um que optou por ficar.
Eu sigo pessoas que sabem e dizem o que devo fazer
mas não consigo encarar meu olhar no espelho.
Eu vejo pombos transformando-se em abutres
e duvido do que considero verdadeiro.
O poeta jogou-me frente a sua falsidade
e o mendigo me contou o que era preciso saber.
Perdi séculos em sabedoria
em busca de um segundo de esperança.
Uma garota que estava perdida conseguiu me encontrar.
Um anjo que viu o diabo conseguiu me enganar.
Aquele triste olhar me negou a escuridão
e um par de asas conseguiu sair da escravidão.
Alguém teve de partir, mesmo sem querer ir.
Esvaziei minha alma em lamentos e chorei sangue por instantes.
A hora da partida deixou dor e piedade.
E era, então, momento de reiniciar a viagem.
1995

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