30 de abril de 2014

Dias comuns

(Mêmes les jeunes filles, Dorothea Tanning - www.dorotheatanning.org)


Vejo flores em chama sobre a estante
e ratos devorando pés humanos.
Ouço vozes roucas a pedir carne crua
e gritos selvagens que emergem da terra.

Sinto meus pulmões estourando e meu fígado encharcado.
Sinto que estou a sair do ventre que tanta paz me dava.
Minha boca mastiga lâminas afiadas.
Sinto o gosto real da vida, da dor de existir.

Pressinto o odor de corpos decompostos.
Mentes degeneradas, vida podre, sociedade fétida.
Toco em almas banidas e elas retribuem o afago.
Aperto a mão de quem eu amava, mas que há muito se foi.

Satisfaço toda a imperfeição do mundo
alimentando-o com injustiça, intolerância, incompreensão, imperfeição...
Sorrio para minha ignorância
e abraço todas as chagas da existência.

Olho para o teto.
Estou acordado há algum tempo, mas, só agora resolvo me levantar.
Toco o chão frio com meus pés descalços.
Calço meus sapatos e resolvo ir trabalhar.


1997

Nenhum comentário:

Postar um comentário