Vejo flores em chama sobre a estante
e ratos devorando pés humanos.
Ouço vozes roucas a pedir carne crua
e gritos selvagens que emergem da terra.
Sinto meus pulmões estourando e meu fígado encharcado.
Sinto que estou a sair do ventre que tanta paz me dava.
Minha boca mastiga lâminas afiadas.
Sinto o gosto real da vida, da dor de existir.
Pressinto o odor de corpos decompostos.
Mentes degeneradas, vida podre, sociedade fétida.
Toco em almas banidas e elas retribuem o afago.
Aperto a mão de quem eu amava, mas que há muito se foi.
Satisfaço toda a imperfeição do mundo
alimentando-o com injustiça, intolerância, incompreensão, imperfeição...
Sorrio para minha ignorância
e abraço todas as chagas da existência.
Olho para o teto.
Estou acordado há algum tempo, mas, só agora resolvo me levantar.
Toco o chão frio com meus pés descalços.
Calço meus sapatos e resolvo ir trabalhar.
1997

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