29 de abril de 2014

Hoje

(Poison pen, Katherine Sanderson - www.art.com)



A transição se irradia no ser.
O peso de minha alma afunda-se no lodo imundo de minha estupidez.

A fragilidade do meu espírito me mantém.
                                                            Entre os que desconheço.
                                                            Entre os que condeno.
                                                            Entre os que me suportam.

Talvez seja esta a questão final:
Ser o que sou, ficando só
Ou
Ser qualquer um no meio de estranhos?

Não me afagam, nem me perguntam o que sinto.
Se perguntassem, não seria sincero.
Nem a pergunta, nem minha resposta.

Não suporto mais viver tão só.
E não suporto mais a vida entre tais canibais conservadores.
Não gosto de ouvir a imbecilidade das frases consoladoras
e nem que riam dos outros, como muitas vezes faço.

Hoje não dormirei tão cedo.
Caminharei um pouco pela noite, sóbrio,
e chegarei em casa bêbado de dores e saudades,
sentarei na cama, com luzes apagadas,
pensarei na tristeza que me afoga
e secarei as lágrimas no meu travesseiro.

Não quero mais me ver como sou.
Não quero mais sentir o que sinto, o que senti.
Quero só andar, cabisbaixo, calado
e esquecer, por um segundo, que, como o Delator, estou sendo julgado.


1996

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