(Poison pen, Katherine Sanderson - www.art.com)
A transição se irradia no ser.
O peso de minha alma afunda-se no lodo
imundo de minha estupidez.
A fragilidade do meu espírito me
mantém.
Entre
os que desconheço.
Entre
os que condeno.
Entre
os que me suportam.
Talvez seja esta a questão final:
Ser o que sou, ficando só
Ou
Ser qualquer um no meio de estranhos?
Não me afagam, nem me perguntam o que
sinto.
Se perguntassem, não seria sincero.
Nem a pergunta, nem minha resposta.
Não suporto mais viver tão só.
E não suporto mais a vida entre tais
canibais conservadores.
Não gosto de ouvir a imbecilidade das
frases consoladoras
e nem que riam dos outros, como muitas
vezes faço.
Hoje não dormirei tão cedo.
Caminharei um pouco pela noite,
sóbrio,
e chegarei em casa bêbado de dores e
saudades,
sentarei na cama, com luzes apagadas,
pensarei na tristeza que me afoga
e secarei as lágrimas no meu
travesseiro.
Não quero mais me ver como sou.
Não quero mais sentir o que sinto, o
que senti.
Quero só andar, cabisbaixo, calado
e esquecer, por um segundo, que, como o Delator, estou
sendo julgado.
1996

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