1 de maio de 2014

Eu

(Nature morte, Wifredo Lam - www.wifredolam.net)


Caminhaste longo tempo ao vento forte do ontem
sugando,assim, todas as intempéries do dia.
Decerto estavas tão atento ao alheio ser
que esqueceste de tudo que de bom tiveste.

Fostes tão santo quanto justifica a própria Santidade.
Fostes tão puro que até a Pureza lhe amava.
Fostes tão fiel que temestes a solidão.
Fostes tão exato que errastes dias sem fim pelo mundo afora.

Mas, mesmo santo, puro, fiel e exato.
Um dia cansastes de tudo que era e tinhas.
E, sendo puro, jogou-se na lama da dúvida,
chafurdando-se de questões que ninguém lhe respondia.

E sendo por demais fiel a tudo e a todos
um dia traístes a si mesmo, escondendo
seus sentimentos embaixo do tapete em que
limpavam os pés os que desejavam entrar em seu coração.

E, por teres sido exato, e por já
não mais ser puro e fiel, deixaste de o ser.
E exatidão virou disformidade e inconstância,
transformando o certo em talvez e o incerto em constante.

E, com tantas dúvidas na mente, tanto sentir no coração,
já não podias crer que fosses santo.
Ser santo para ti era ser a própria existência do nada.
E seguiste por um caminho sem volta.

Um caminho onde, em seu final, só poderia haver respostas.
E hoje seu ser-solidão vive em teu peito a clamar
o fim da encruzilhada em que te meteste
Mas, é longe o fim. Com a solução de um problema, outro vai surgir.

E aguardamos.
Tu pela solução dos mistérios sem mistérios.
E eu por tua volta.
Levastes, em tua partida, minha alegria.

Bebeste demais da água amarga da razão.
Hoje estás perdido no beco escuro da indigna imaginação.
O preço da tua loucura sou eu quem paga.
E pago sentindo saudades, dor e querer.

O querer que voltes.
A dor da má-sorte.
E saudades de você...

1997

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