17 de maio de 2014

Foto




Lembro da foto recebida.

Libelo poderoso de imagem nítida. Forte memória impressa em minhas retinas, minha memória e meu mundo interno. Foto solitária, presumivelmente, pelos gestos impostos, também solitários, de quem sorri pra si mesma, com intenção de que outro veja seu sorriso.

Engano?

Engano-me?

Existe alguém próximo o suficiente para ter o poder de obter tal foto, clara e próxima? Alguém que gere um sorriso tão puro, sincero, cúmplice?

Ela veste um verde, aguardando, aguardente marinha, folhas de plantas nascidas há pouco. Ajuste perfeito entre o fundo que se perde na presença da pessoa que posa. Vislumbro o ouro dos cabelos, vislumbro o vestido ou blusa leve, com detalhes que se perdem na busca da imagem. Seu corpo parece se aproximar, vê-se apenas parte de seu tronco, mas seu rosto é que transcende na imagem. Apenas tento recordar. A blusa/vestido mais interessante que eu poderia ter visto e que nunca tive o prazer de ver. Volto à imagem dos cabelos. Lisos em si, com ondulações leves, como um riacho que corre sem pressa. Longos, tal qual os delírios que perpassaram os dias em que vislumbrei tal foto na busca por uma resposta sobre se era jogo ou passatempo, verdade ou mais outra estrada que nunca chegasse a seu fim.

Seu rosto está próximo. Sempre está. Olha direto para a lente da câmera, sabendo que sairá perfeita, como em todas as horas do dia, numa imagem saborosa de se ver, como o é em todos os momentos da vida.

Sorri.

Não um sorriso para fotos. Um sorriso de quem acaba de conhecer alguém interessante, um sorriso de quem reencontrou alguém que gostava, um sorriso de quem realmente deseja sorri.

Novamente me pergunto se me engano...

Se alguém foi o fotógrafo, talvez seja apenas o sorriso leve de alguém que se sente à vontade perto de outro, talvez seja apenas um sorriso de algo engraçado, da vida cotidiana que se torna clara em meio ao turbilhão negro dos outros tantos dias.

Seu sorriso mostra lábios poderosos. Clara simetria com a pele alva que desperta o dia e assombra de sombras nítidas, deliciosas e úmidas das noites, de sonhos. Minhas noites de sonho. De vida para outro.

Seus lábios deixam entrever, em fina fresta, leve dobradura que aclara a personalidade, mostrando que nada é forjado, nada é preparado. E se vê, se imagina ver, leve dente que aparece no canto que meu olho fixa. Daí, segundos depois, em fotos que minha imaginação tenta revelar, surgem dentes, marfins, leite, que mostram sorriso que, antes de revelar a si mesmo, cegam quem o vê, como luz forte que força os olhos a fechar-se, numa prova de medo racional do que não se deve enxergar. Deus em chamas que mortais estão proibidos de ver. Ver seu sorriso é também sorrir.

Pele. Já dita: alva. Clara. Contornos precisos. Precisão nos entalhes. Maçãs, frutas, flores, plantas, pássaros em torno de sua face. Cada poro um desafio de descrição. Não se luta sabendo de derrota. Formato anguloso, alguns anos, trinta e poucos biológicos, semblante faceiro de moça, enigma de milênios. Sem marcas de sol incandescente, que respeita luz mais poderosa. Alguns traços únicos, vindos do tempo de aprendizagem, vindos do tempo de inocência.

Tenho medo de continuar.

Olho. Fecho os olhos. E fechando é que os vejo.

Os olhos.

Sempre os vi como verde. Na foto, em meio ao excesso de verde que a roupa demonstra, eles se encaixam, assim como todos os iguais camuflam-se entre si.

Ninguém saberá se quem voa é a árvore ou o pássaro.

No meio do verde, ponto negro mostra um turbilhão de imagens que só os encantados veriam. Sucumbo ao feitiço. Vejo torres, castelos, ruas de livros, beija-flores, vida que viceja, sonhos que nunca acabam-se dentro de si e que ela teima em esparramá-los, por onde quer que venha a passear.

Sonho em adentrá-los, conhecê-los, desvendá-los. Paro. Não ouso. Ela teme, abraçada que está no mundo dentro de si. No mundo que venderam-lhe e que ela teima em dizer que é seu. Eu temo, temerário que sou do mundo em volta de mim.

Não resisto. Insisto. Vejo aqueles olhos, olhando a foto, e é como se os olhasse dentro de mim. Não como quem vê. Como quem sente, quem confia, quem esperou. Olho os olhos que vislumbram em mim o que nunca deve ser visto.

Olho os olhos que a procura incessante deu-me por prêmio a benção de vê-los.




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