16 de maio de 2014

Uma história infantil

Pauliina Hannuniemi



Deitada na parede externa do sótão, observando a corrida flutuante das lesmas espaciais, a moça de dedos curtos corrigia o rumo das estrelas com seus olhos protuberantes, bonitos e afoitos. Na quase verdade de suas horas, corrigia-se de seus sorrisos de deusa ausente com outros sorrisos de sua humanidade estrangeira, delimitando-os com linhas finas de lábios que pronunciavam, na solidão de sua matemática, uma língua materna de sílabas tríades e fonemas que, como num caso de amor terrestre, dependiam da compreensão do ouvinte.

Nessa monótona elegia estelar, viu um monstro de várias patas e pernas, cores antimorfas e classes obtusas de buscas por sinais de antenas incompreensíveis, a aproximar-se da imensidão da distância que os separava. Nem de nojo ou medo em tela nomes ou árvores, rápido, sem jeito, alongou seus apêndices de toque e de aproximação e desvendou sobre a capa clara de sua cobertura estrutural o caminhar da criatura de menor tamanho e maior estranheza que vislumbrara.

Percebeu um completo entornar de cor absolutamente piche destacando o que alguns diriam ser amarelo, outros parede e somedestros restos de fumaça acústica. Pequeno circo de infinitos, espetáculo aberrante, nem para proteger dos anjos tortos de semblantes cálidos, nem para aves aquáticas de narizes afincos. Aspirou pelas membranas obscuras de suas ânsias o trocar de membros desqualidificados , uns pelos tantos, traçando pela externicidade de sua criatura, que era, o mapa atlântico de suas penas supostas vividas.

Desabrochou-lhe um entardecer por entre a esfera celeste de sua página.


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