Liu Bolin
Todos os dias ele ia ao mercado.
Entrava normalmente e normalmente caminhava pelos corredores. Olhava entediado, admitia, o rosto das pessoas da mesma forma que entediava-se com os produtos expostos nas prateleiras. E, no meio de seu tédio, escolhia ao acaso um carrinho de compras qualquer que sempre um descuidado deixa. Não olhava o que havia de produtos.
Simplesmente precisava ir embora. Guiava o carrinho, furtado alguns diriam, pelo corredor, chegava ao caixa, efetuava o pagamento estipulado e ia embora.
Vez ou outra era percebido por alguém no momento em que pegava o carrinho, fingia-se equivocado, pedia desculpas falsas. Alguns queixavam-se, outros discutiam para as paredes, ele dava-lhe as costas. Ignorava. Seguia. Levava um outro carrinho qualquer.
Chegava em casa e só então percebia que havia comprado leite, algumas vezes vinhos, frutas, absorventes, promoções, inutilidades.
E, assim, ele vivia. Sugando dos outros seus gostos, suas opções.
Vivia do alheio e garantia sua sub-existência.

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