6 de maio de 2014

Reflexo

Mark Rothko

Acordei com aquela sensação estranha de novo.

Como se algo que há muito esperava, houvesse ocorrido. Porém, por algum motivo, não consigo recordar das últimas horas. Olho meu reflexo no espelho.

Eu? Rosto amassado, dentes tortos, olhos fundos. Tão fundos como a própria alma do demônio. Olho pra baixo e vejo que me encontro sujo como um cão a quem o dono não se recorda mais porque o tem: um nojo.

Se minha inconsciência me pregou uma peça insana, onde fui o palhaço dos outros em algum recanto alheio, tudo bem. Mas, se de forma consciente fiz o que não deveria, a quem deveria cobrar, se não de mim mesmo?

Enquanto passo a mãos por meus cabelos, que despontam e apontam, cada fio a uma direção do infinito, sinto como se estranhos distúrbios houvessem me invadido e difusos pensamentos perturbam meu cérebro, como se fossem os reflexos de uma só emoção, que atingisse todo o organismo, perturbando-o mais que todas as sensações simultâneas.

A inconveniência sempre esteve presente, perscrutando-me em todos os lugares por onde passei. Minha inconveniência e a de muitos outros. Sempre constante em meus erros, sempre fui um inconstante na presença de outras pessoas.

Ter saído a noite passada e aprontado mais uma série de erros incontroláveis, lutando na adversidade do centro urbano, não me surpreende. Esta cidade maldita corrói os ossos de quem a visita. Imagine o corpo, então, de quem a adotou como pátria? Minhas lembranças das vezes em que naveguei na felicidade deste inferno de cimento foram perdidas há tanto tempo que sequer posso afirmar que formem partes na realidade, que sejam frutos desta última.

De repente, percebo que sequer conheço o quarto onde estou. Aquela sensação, sabe, no fim de uma bebedeira, quando você abre os olhos e se pergunta onde diabos se encontra... Acabou de acontecer.

Demorou. Péssimo sinal. Todos os vultos que surgem em minha mente são estranhos. Mas, um único vulto, de alguém que, pelo visto, encontrei ontem à noite, alguém que desconheço, perturba meus olhos, como um cisco, um erro.

Eu, que me ponho a pensar em cada sombra que cruza meu caminho, não para iluminá-las, sim para apagá-las, vejo esta sombra indefinida, vinda do ontem, em meus olhos meio cegos.

Olho em volta, preso a sensações. Numa mesa, ao lado do espelho, um jarro com água. Jarro, jaula, jogo... Começo a delirar. Primeira vez? Milésima... Imensa reviravolta, revirando o estômago, exposto... Vômito. Vomito. Tudo que não tenho dentro de mim.

Dobro-me em mim mesmo. Joelhos ao solo. A tudo que vem, que sai, nova dor terrível. Cabeça, tronco, membros. Exceto pensamentos. Estes não doem. Torturam. A mim, a todos. Mesmo um leve raciocinar, revolta. Algo perdido entre o cérebro e o passado. Pequeno em seu tamanho indecifrável, demais pra ser suportado. Perto do fim, de meu fim, outro serei eu...

Como resultado de minutos de vomito e devaneio, tento me levantar, mais imundo do que quando estava em pé. De pé, meus desejos resumem-se a xingar: Malditos dias, noites, horas.

Inimigo de minha melhora é a visão de uma cama suja e vazia, de lençóis amarelados e corroídos, que vejo à minha frente, pelo reflexo do espelho, mas que encontra-se às minhas costas. Procuro definir o que restará de mim mesmo, quando, realmente desperto, vir a saber o que ocorrera.

Do fundo de meu eu, procuro respostas e vejo apenas a lembrança do vulto da infância que atormenta minhas horas vazias. Tão estranho que o descubro mais real que a mim mesmo. Aos outros, os posteriores a este, nada de lembranças me procuram.

Talvez, como eles pudessem vir a me procurar, fantasmas que são em meio as lembranças de seus tormentos, resta-me, a mim, o desejo de que não me encontrem. Que apenas o antigo fantasma que me criou permaneça aqui, dentro de mim, como o fez tantas vezes incômodas.

Retiro do canto de minha boca o líquido asqueroso que ainda dela escorre. Uma baba fétida e espessa. Um bocado de trabalho pela frente... Um monte de faxina a fazer... Questões são belas, enquanto indecifráveis. Eu, que pouco mais sei fazer do que conquistar as escolhidas e cumprir minha sina, permaneço alheio a tudo, exceto a cumprir minha meta, minha missão.

Movo-me calmamente. Passo as mãos sujas sobre a testa molhada, os cabelos grudados.

Correr de mim, novamente, é em vão.

Caminho alguns passos, visualizando-me mentalmente, agora que, recomposto em consciência o que ainda não estou em aparência, entro no que chamam de banheiro. Olho adiante, vejo-me ainda vivo, ainda cambaleante, em meu próprio espelho.

Reflexo partido de mim mesmo.

Em minha própria casa, próprio quarto, e perdido de mim. No chão, a sujeira vermelha da sombra tosca com quem cruzei e que confiou mais em mim que em si mesma. Banhada com a podridão de si mesma, deixou-me apenas o trabalho de realizar a limpeza. Nunca um banheiro no mundo se viu tão sujo...

Mas, agora, pelo menos, eu tenho apenas que lutar contra mim mesmo.

Contra ninguém.





PS – O texto acima é uma tentativa de brincar a partir do seguinte conceito: transformar poesia em prosa, mantendo todos os termos, na sequência em que aparecem. Baseei-me em um texto próprio anterior, conforme citado na referida postagem, que segue abaixo:



REFLEXO


Eu? Um nojo.

Consciência inconsciente de mim mesmo.
Distúrbios difusos de uma só emoção.
Inconveniência sempre constante,
na adversidade, na felicidade, na realidade.

Um vulto de alguém que desconheço.
Eu, sombra indefinida do ontem.
Preso numa jaula imensa,
exposto a tudo, exceto a mim mesmo.

Um algo pequeno demais perto de meu outro eu.
Resultado de minutos de desejos malditos.
Inimigo de mim mesmo, de meu eu.
Estranho a outros, como eles a mim.

Um monte de questões indecifráveis.
Eu, alheio a tudo de mim.
Visualizando-me em meu próprio espelho (partido).
Eu, contra mim mesmo, contra ninguém.





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