Mark Rothko
Acordei
com aquela sensação estranha de novo.
Como
se algo que há muito esperava, houvesse ocorrido. Porém, por algum
motivo, não consigo recordar das últimas horas. Olho meu reflexo no
espelho.
Eu? Rosto amassado, dentes tortos, olhos fundos. Tão fundos
como a própria alma do demônio. Olho pra baixo e vejo que me
encontro sujo como um cão a quem o dono não se recorda mais porque
o tem: um nojo.
Se
minha inconsciência me pregou uma peça insana, onde fui o palhaço
dos outros em algum recanto alheio, tudo bem. Mas, se de forma
consciente fiz o que não deveria, a quem deveria cobrar, se não de
mim mesmo?
Enquanto
passo a mãos por meus cabelos, que despontam e apontam, cada fio a
uma direção do infinito, sinto como se estranhos distúrbios
houvessem me invadido e difusos pensamentos perturbam meu cérebro,
como se fossem os reflexos de uma só emoção, que atingisse todo o
organismo, perturbando-o mais que todas as sensações simultâneas.
A
inconveniência sempre esteve presente, perscrutando-me em todos os
lugares por onde passei. Minha inconveniência e a de muitos outros.
Sempre constante em meus erros, sempre fui um inconstante na presença
de outras pessoas.
Ter
saído a noite passada e aprontado mais uma série de erros
incontroláveis, lutando na adversidade do centro urbano, não me
surpreende. Esta cidade maldita corrói os ossos de quem a visita.
Imagine o corpo, então, de quem a adotou como pátria? Minhas
lembranças das vezes em que naveguei na felicidade deste inferno de
cimento foram perdidas há tanto tempo que sequer posso afirmar que
formem partes na realidade, que sejam frutos desta última.
De
repente, percebo que sequer conheço o quarto onde estou. Aquela
sensação, sabe, no fim de uma bebedeira, quando você abre os olhos
e se pergunta onde diabos se encontra... Acabou de acontecer.
Demorou.
Péssimo sinal. Todos os vultos que surgem em minha mente são
estranhos. Mas, um único vulto, de alguém que, pelo visto,
encontrei ontem à noite, alguém que desconheço, perturba meus
olhos, como um cisco, um erro.
Eu,
que me ponho a pensar em cada sombra que cruza meu caminho, não para
iluminá-las, sim para apagá-las, vejo esta sombra indefinida, vinda
do ontem, em meus olhos meio cegos.
Olho
em volta, preso a sensações. Numa mesa, ao lado do espelho, um
jarro com água. Jarro, jaula, jogo... Começo a delirar. Primeira
vez? Milésima... Imensa reviravolta, revirando o estômago,
exposto... Vômito. Vomito. Tudo que não tenho dentro de mim.
Dobro-me
em mim mesmo. Joelhos ao solo. A tudo que vem, que sai, nova dor
terrível. Cabeça, tronco, membros. Exceto pensamentos. Estes não
doem. Torturam. A mim, a todos. Mesmo um leve raciocinar, revolta.
Algo perdido entre o cérebro e o passado. Pequeno em seu tamanho
indecifrável, demais pra ser suportado. Perto do fim, de meu fim,
outro serei eu...
Como
resultado de minutos de vomito e devaneio, tento me levantar, mais
imundo do que quando estava em pé. De pé, meus desejos resumem-se a
xingar: Malditos dias, noites, horas.
Inimigo
de minha melhora é a visão de uma cama suja e vazia, de lençóis
amarelados e corroídos, que vejo à minha frente, pelo reflexo do
espelho, mas que encontra-se às minhas costas. Procuro definir o que
restará de mim mesmo, quando, realmente desperto, vir a saber o que
ocorrera.
Do
fundo de meu eu, procuro respostas e vejo apenas a lembrança do
vulto da infância que atormenta minhas horas vazias. Tão estranho
que o descubro mais real que a mim mesmo. Aos outros, os posteriores
a este, nada de lembranças me procuram.
Talvez,
como eles pudessem vir a me procurar, fantasmas que são em meio as
lembranças de seus tormentos, resta-me, a mim, o desejo de que não
me encontrem. Que apenas o antigo fantasma que me criou permaneça
aqui, dentro de mim, como o fez tantas vezes incômodas.
Retiro
do canto de minha boca o líquido asqueroso que ainda dela escorre.
Uma baba fétida e espessa. Um bocado de trabalho pela frente... Um
monte de faxina a fazer... Questões são belas, enquanto
indecifráveis. Eu, que pouco mais sei fazer do que conquistar as
escolhidas e cumprir minha sina, permaneço alheio a tudo, exceto a
cumprir minha meta, minha missão.
Movo-me
calmamente. Passo as mãos sujas sobre a testa molhada, os cabelos
grudados.
Correr
de mim, novamente, é em vão.
Caminho
alguns passos, visualizando-me mentalmente, agora que, recomposto em
consciência o que ainda não estou em aparência, entro no que
chamam de banheiro. Olho adiante, vejo-me ainda vivo, ainda
cambaleante, em meu próprio espelho.
Reflexo
partido de mim mesmo.
Em
minha própria casa, próprio quarto, e perdido de mim. No chão, a
sujeira vermelha da sombra tosca com quem cruzei e que confiou mais
em mim que em si mesma. Banhada com a podridão de si mesma,
deixou-me apenas o trabalho de realizar a limpeza. Nunca um banheiro
no mundo se viu tão sujo...
Mas,
agora, pelo menos, eu tenho apenas que lutar contra mim mesmo.
Contra
ninguém.
PS – O texto acima é uma
tentativa de brincar a partir do seguinte conceito: transformar
poesia em prosa, mantendo todos os termos, na sequência em que
aparecem. Baseei-me em um texto próprio anterior, conforme citado na
referida postagem, que segue abaixo:
REFLEXO
Eu?
Um nojo.
Consciência
inconsciente de mim mesmo.
Distúrbios
difusos de uma só emoção.
Inconveniência
sempre constante,
na
adversidade, na felicidade, na realidade.
Um
vulto de alguém que desconheço.
Eu,
sombra indefinida do ontem.
Preso
numa jaula imensa,
exposto
a tudo, exceto a mim mesmo.
Um
algo pequeno demais perto de meu outro eu.
Resultado
de minutos de desejos malditos.
Inimigo
de mim mesmo, de meu eu.
Estranho
a outros, como eles a mim.
Um
monte de questões indecifráveis.
Eu,
alheio a tudo de mim.
Visualizando-me
em meu próprio espelho (partido).
Eu,
contra mim mesmo, contra ninguém.
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