Gustav Klimt
Durante
a procura de uma caneta qualquer, por motivos alheios a minha própria
vontade, acabei revirando cadernos e livros abandonados no fundo da
gaveta. Nada de muito importante, eu poderia dizer. Mas, sendo assim,
não haveria motivos pra estar escrevendo sobre isto agora...
A
importância, ou pelo menos a quebra de minha monotonia exacerbada,
deu-se quando deparei com um pedaço de papel, um recorte totalmente
irregular, que veio a cair de um livro qualquer. E caracteres
simples, eu que tão acostumado a eles estive, assombraram-me.
Sua
letra.
Caligrafia
bonita, nada extraordinária, apenas bonita. Contornos não muito
cuidadosos, nem por isso ilegível ou incompleta, qualquer fosse a
forma em que alguém se dispusesse a ler o conteúdo. Escrita com uma
tinta azul, possivelmente de uma caneta barata qualquer, mas de
pigmentos ainda fortes, ainda presentes.
Fiquei
imóvel por alguns instantes. Uma viagem lenta ao fundo de um poço
antigo, que eu julgava há muito lacrado, foi pouco a pouco me
fazendo buscar um apoio e acabei por sentar-me na cadeira próxima.
Não por mal estar ou vertigem verdadeira: para suportar o peso das
lembranças. Adaptar-me de novo a elas, que voltavam tão vivas como
outrora, quando o hoje passado ainda era intitulado presente.
Gostaria
de dizer que o motivo foi que havia me esquecido completamente e que
aqueles pequenos desenhos em fundo branco me obrigaram a recordar.
Não. Estaria mentido como mentem todos que dizem que esqueceram-se
de alguém que um dia chegou a ser importante. Você foi mais que
importante: foi essência.
E
nunca esqueci. De nada. Apenas levei a vida para um patamar tão
prático e rotineiro que nos dias atuais sequer poderia me lembrar do
último café da manhã provado. Mas, tal qual o gosto deste mesmo
café ou a certeza de que a obrigação do desjejum havia sido feita,
carregava comigo ainda aquela presença, aquela palavra, aquele
rosto, aquele olhar.
Seu
olhar.
Seu
rosto.
Passei
a imaginar no que ele poderia ter transformado-se, os efeitos do
tempo. Não consegui obter efeito algum. Assim como veria ainda sua
beleza, seu brilho, se as estradas houvessem continuado o mesmo curso
de anteriormente, ao invés de bifurcarem-se, assim, e somente assim
continuava a ver-te em minha memória: bela e radiante. Como um lua
cheia sobre campos, como sol sobre montanhas.
Não
estou escrevendo para você. Nunca lhe entregaria este papel. Nem
poderia. Nunca mais obtive notícias suas, não sei onde te
encontrar. E, mesmo sabendo, imagino que não me atreveria. A
possibilidade de ser rechaçado ou de parecer um estranho,
possivelmente me atingiria mais que o próprio término.
E
foi um término: para ambos. Fim de projetos, de ilusões, de sedes e
desejos. Como uma vida que cessasse muito antes do esperado, tal qual
um pai que enterra um filho.
E
o luto foi terrível. Sai para os lugares que não deveria, andei com
amigos os quais nem suportava, arranjei as brigas erradas, cometi
pecados que eu nunca perdoaria. Bebi menos do que o desejado, pois a
intenção sempre era não acordar ou acordar em outra realidade ou
perceber que apenas sonhei que o fim havia chegado.
E
te perturbei. Eu precisava provar que podia ser vil, que podia ser
mal, que podia te esquecer. E que você também poderia. Te
atormentava não para que voltasse, apesar de falar isto todo o
tempo. Te atormentava para te esquecer. Para que a imagem que eu
tinha de você se tornasse outra. Que a imagem que você levava de
mim crescesse em um misto de arrependimento, raiva, dor, asco.
E
nunca mais você pensasse em nós. Nunca mais ouvisse uma música que
tivéssemos ouvido. Nunca mais eu pensasse em você. Nunca.
Não
consegui.
E,
com este pequeno pedaço do que um dia foi uma árvore (qual delas?
Quem a plantou?) em minhas mãos de pele tão riscada que se parecem
estradas lunares, percebo que nunca conseguirei: “Amor, saindo às
pressas pra escola! Seu almoço na geladeira. Não demoro.”

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