7 de maio de 2014

Perdido


Gustav Klimt

Durante a procura de uma caneta qualquer, por motivos alheios a minha própria vontade, acabei revirando cadernos e livros abandonados no fundo da gaveta. Nada de muito importante, eu poderia dizer. Mas, sendo assim, não haveria motivos pra estar escrevendo sobre isto agora...

A importância, ou pelo menos a quebra de minha monotonia exacerbada, deu-se quando deparei com um pedaço de papel, um recorte totalmente irregular, que veio a cair de um livro qualquer. E caracteres simples, eu que tão acostumado a eles estive, assombraram-me.

Sua letra.

Caligrafia bonita, nada extraordinária, apenas bonita. Contornos não muito cuidadosos, nem por isso ilegível ou incompleta, qualquer fosse a forma em que alguém se dispusesse a ler o conteúdo. Escrita com uma tinta azul, possivelmente de uma caneta barata qualquer, mas de pigmentos ainda fortes, ainda presentes.

Fiquei imóvel por alguns instantes. Uma viagem lenta ao fundo de um poço antigo, que eu julgava há muito lacrado, foi pouco a pouco me fazendo buscar um apoio e acabei por sentar-me na cadeira próxima. Não por mal estar ou vertigem verdadeira: para suportar o peso das lembranças. Adaptar-me de novo a elas, que voltavam tão vivas como outrora, quando o hoje passado ainda era intitulado presente.

Gostaria de dizer que o motivo foi que havia me esquecido completamente e que aqueles pequenos desenhos em fundo branco me obrigaram a recordar. Não. Estaria mentido como mentem todos que dizem que esqueceram-se de alguém que um dia chegou a ser importante. Você foi mais que importante: foi essência.

E nunca esqueci. De nada. Apenas levei a vida para um patamar tão prático e rotineiro que nos dias atuais sequer poderia me lembrar do último café da manhã provado. Mas, tal qual o gosto deste mesmo café ou a certeza de que a obrigação do desjejum havia sido feita, carregava comigo ainda aquela presença, aquela palavra, aquele rosto, aquele olhar.

Seu olhar.

Seu rosto.

Passei a imaginar no que ele poderia ter transformado-se, os efeitos do tempo. Não consegui obter efeito algum. Assim como veria ainda sua beleza, seu brilho, se as estradas houvessem continuado o mesmo curso de anteriormente, ao invés de bifurcarem-se, assim, e somente assim continuava a ver-te em minha memória: bela e radiante. Como um lua cheia sobre campos, como sol sobre montanhas.

Não estou escrevendo para você. Nunca lhe entregaria este papel. Nem poderia. Nunca mais obtive notícias suas, não sei onde te encontrar. E, mesmo sabendo, imagino que não me atreveria. A possibilidade de ser rechaçado ou de parecer um estranho, possivelmente me atingiria mais que o próprio término.

E foi um término: para ambos. Fim de projetos, de ilusões, de sedes e desejos. Como uma vida que cessasse muito antes do esperado, tal qual um pai que enterra um filho.

E o luto foi terrível. Sai para os lugares que não deveria, andei com amigos os quais nem suportava, arranjei as brigas erradas, cometi pecados que eu nunca perdoaria. Bebi menos do que o desejado, pois a intenção sempre era não acordar ou acordar em outra realidade ou perceber que apenas sonhei que o fim havia chegado.

E te perturbei. Eu precisava provar que podia ser vil, que podia ser mal, que podia te esquecer. E que você também poderia. Te atormentava não para que voltasse, apesar de falar isto todo o tempo. Te atormentava para te esquecer. Para que a imagem que eu tinha de você se tornasse outra. Que a imagem que você levava de mim crescesse em um misto de arrependimento, raiva, dor, asco.

E nunca mais você pensasse em nós. Nunca mais ouvisse uma música que tivéssemos ouvido. Nunca mais eu pensasse em você. Nunca.


Não consegui.


E, com este pequeno pedaço do que um dia foi uma árvore (qual delas? Quem a plantou?) em minhas mãos de pele tão riscada que se parecem estradas lunares, percebo que nunca conseguirei: “Amor, saindo às pressas pra escola! Seu almoço na geladeira. Não demoro.”



 

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