Todo vício tem irmandade com o tédio.
O tédio carrega, arrasta, às costas, seu parentesco com a razão.
E o tempo suporta a tudo com tanta calma
quanto é da natureza de si mesmo suportar.
Nada que se queira vale mais que o que se tem.
Suportar o dia é negar o dom de adorar.
Negar a vida é duvidar do sentimento que sustenta.
Salvar o tempo é enforcar-se. Antes matá-lo...
Tudo o que nos resta nos foi doado.
Uma falsa piedade nos mantém à tona.
A lama que aguardamos nos é negada a todo instante
e o que eu sinto eu transformo no que acho que sentimos...
Toda história suja, todo dia imundo...
Nada de esperanças. A fé não existe. Nada de desejos.
A força se foi, o sonho é obscuro. Tudo é.
Se há anjos, não voam. Se há Deus, não ousa.
Só a dúvida, o não-querer, o vício, o tédio.
Só o tempo se arrastando, a razão negando-se.
Só isso tudo e tudo isso é nada.
Apenas uma coisa a engolir a outra e nada se mantém.
O susto é razão de ignorância, base de desespero.
O poder, a fraqueza que desejamos.
O resto de tudo, o nada que nos nega.
No fundo do caos: o amor.
E, sobre o amor, nada se deve dizer...
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