18 de maio de 2014

Pele


William Adolphe Bruguereau


No recantos múltiplos de tua pele pálida, entre os percalços de noites insones, é em tua pele cálida que sonho meu adormecer.
E, desse início bonito e triste, dessa nossa história que sub-existe, abro e fecho os olhos vendo você. 
Preso a uma distância maior que a física, aumenta minha vontade de te ver e recorro aos presentes que me deste: 
Fotos secretas de uma beleza que investe tal touro selvagem contra minha madrugada triste.
Sinto sua falta pesando em meu peito e minha morte é iminente, um infarto que alternativa alguma cura ou ameniza. 
Em imagens que sonhei ver na vida real, vejo seus olhos de infinitos a encarar-me.
Mas sei que não são a mim que olham:
talvez a lente de uma câmera capaz de pintar uma imagem de deusa;
talvez os olhos de alguém que desconheço.

E sofro e transfiro meus pensamentos e torno a fixar-me em você.
Observo sua pele, pétalas de uma flor do campo que o vento leve soprou, dando-lhe pequenos pêlos feitos do ouro santo, a ouriçar-se diante do encanto.
Continuo a vislumbrar o pequeno álbum do que um dia foi esperança sempre negada e chego à única foto em que seus olhos não podem ser vistos.
Não são seus cabelos que os cobrem, nem um pose que me nega-os.
Por vontade própria, você se encontra de costas para a lente, 
talvez de frente para os olhos de um Deus que se delicia enquanto te observa, nesse quarto em que você se torna musa e ápice dos sonhos.
De costas, seus cabelos em um tom de sombras calmas, pouco aparece.
Seus pés se cruzam suaves, pernas que se assemelham à dança de amantes.
De bruços, sobre a cama que pele artificial alguma cobre, imagino as auréolas de teu seio, pressionadas contra o leito, como se a boca sedenta que um dia os provou, estivesse a afogar-se, num prazer sem fim, deliciando-se indelicadamente e calmamente de cada pequeno detalhe, cheiro, textura, sabor.
Bicos de um tom rosado, sagrados, delicados e lindos, como pássaros raros que nativos se negam a deliberadamente demonstrar.

Olho suas costas. Paisagem clara que acoberta o mundo e a história de mãos que as acariciam, enquanto o fôlego permite vida e a vida permite sonhos.
Montes divinos protuberam-se na languidez da pose que insinua paixão ao mesmo tempo que confiança.
Carne macia que atrai, chamando minha vontade total para o que vejo, o que sonho.
Atrai o oposto. E minha pele escura e dura deseja, num desejo de bicho que habita em mim o sofregar tenso e cheiroso de tudo que habita em ti.

E meus pensamentos, do bucolismo do texto, se transforma em nossas carnes cruas a esfregarem-se em deleite pecador e santificado, na dança dos corpos apaixonados, que se deliciam na cama, na arte do amor, e se embrenham na pele, tomados de uma poesia em flor.





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