19 de maio de 2014

Sonho

Titovich Pavel


No desespero calado, da tortura desperta do afogar iminente, vejo os cabelos dela, revoltos, molhados, perdendo-se na aflição de uma morte que não conseguirei evitar. De braços, nos punhos, amarrados, tento uma flutuação quase natural, num controle desesperado como única e última alternativa. Correnteza constante de um rio que penso conhecer, de um fluxo constante da vida que tive, sempre duvidosa, sempre caudalosa. Não caímos aqui sozinhos. Não amarramo-nos sozinhos, nem um ao outro. Impossibilidade de amantes, quererem-se o mal de si mesmos.

Pedras nos buscam. Não pedras, castelos. Como pedra muçulmana, enorme, negra, mortífera e sagrada. Não somos quem as atiramos. Três distintos vultos. Nobreza no afogar alheio. Alguns erros, alguns alvos acertados. Célebre boa vontade divina que deseja rever seus filhos depois de mortos.

Águas não param porque morremos. Minhas pernas deveriam seguir o conselho. E vejo-a, sempre, em desespero constante, quase morta que se vai sem culpa, vítima de um amor que não foi uma bênção. Depois, em instantes, tão morta que, inerte, nem se lembra de quem foi. Ainda assim movimentos da água a revolvem em constante ir e vir de sua face, submersa e depois a me encarar, num olhar que não é o que me despertou, antes, para a vida. Num vão desespero, tento a seguir. Afundo meu corpo, vendo-a afundar. Busco-a, como se dentes bastassem pra trazer mortos à vida. Na iminência de minha própria morte, covardia fala mais alto. Viver não é sinônimo de coragem.

Do fundo, volto. Vejo o corpo, sonho antigo que vi abraçado em meu corpo, agora frio e inerte, flutuando como a água flutua em si mesma. Metros abaixo, na correnteza. Meus braços doem, minhas pernas morrem. Não sei mais se respiro água ou ar. Ferido, cortes, talhos, profundos. De rochas com recantos como navalhas.

Olho-a ainda. Nunca mais a verei. Perdida num rio de águas brutas, espumas negras. Sua pele, clara constatação de morte, onde antes havia fúria e chama, gozo e glória. Cabelos se revoltam, ensandecidos pelo fluxo aquoso, misturando-se com lama, sangue meu e dela, formando uma corda de fios esparsos que nada mais tem de sua luminosidade matutina anterior.

Mergulho. Afundo novamente. E, num desespero, que não sei mais de buscar a vida ou confirmar a morte, deixo a água me levar enquanto ainda tenho consciência. Subo. Fecho os olhos. Nada vejo, nem submerso, nem no céu. Esbarro minhas pernas. Pedras? Esbarro minhas pernas. Pedras não cairiam duas vezes no mesmo lugar. Talvez, apenas comigo. Mas esbarro minhas pernas. E abro os olhos. E vejo terra. Próxima. Metros. Pernas revivem. Não escolhi. Ausência de controle. Somente viver.

Plantas aquáticas se enroscam. Penso nas pernas dela. Ainda, algumas pedras me atingem, outras apenas me beijam de leve. Minha pele é apenas um quadro de vincos, não mais carne ou ossos. Nessa margem, oposta aos demônios que tento reconhecer, pedras ficam mais longe, pernas ganham mais força, dores mais destaque. Sinto as cordas nos pulsos. Caminho entre areia e água, arbustos e espinhos. Não sei porque não atravessam e terminam o que está por terminar, definido. Sei. Quando criança, animais que demoravam mais a morrer eram o que deixavam a brincadeira mais engraçada.

Consigo sair das margens. Caio em terra. Sinto a terra seca, o sangue a molhá-la, sinto as moscas, as formigas. Todos me querem. Não sorrio nem choro. Levanto. Olho em volta. Não sei por onde ir. Penso em voltar à água. Não penso. De pé. Caminho. Resta-me isso.


Caminho...




 

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