Prometi a mim mesmo o silêncio sagrado como prêmio. E isso conta muito de mim:
quebro promessas, descumpro minha palavra, tão tosca essa quanto seu próprio
autor. Não tenho o caráter dos antigos e nem a consciência tranquila do ladrão.
Por isso escrevo. Não que eu seja um retrato de quem quer que seja, mesmo eu.
Ainda cego de mim mesmo, tenho a crença (cega também, como tudo em volta...) de que ninguém saiba com certeza (essa fruta insossa...) o que é que venha a ser ou seja.
Por isso escrevo. Não que eu seja um retrato de quem quer que seja, mesmo eu.
Ainda cego de mim mesmo, tenho a crença (cega também, como tudo em volta...) de que ninguém saiba com certeza (essa fruta insossa...) o que é que venha a ser ou seja.
E venho
falar de olhos...
Do peso e
dos mundos que abrem, correntes que despedaçam, destinos que mudam.
Corações que
partem...
Reduzo à
tinta ou pixels ou que elementos formem (talvez, em alguém, sentimentos...) os
dias dos quais não mais tenho interesse em recordar. E que convivem
constantemente em meu sangue, agora frio, e em meus olhos sempre cansados e
nervosos, em seus múltiplos sentidos.
No momento
não tenho a convicção de fim, tampouco sonho com recomeços. Não há definições
em quem morre ou em quem sonha.
E escrevo percebendo que é uma forma de manter, em mim, a grave moléstia a que chamam esperança,
essa deusa dos olhos furados que caminha eternamente ao lado dos trôpegos
passos humanos. E, ao mesmo tempo, um dos outros lados de mim diz que tudo é fato
consolidado. Como a morte e além desta...
Minhas mãos
estão calmas. Controlo minha respiração como no fim de uma longa corrida. E
tenho medo de continuar a escrever o que quer que seja e falar das doenças sem remédio,
do passado inextrincável e imutável que todos chama de destino (e em que não
creio que exista...).
E aqueles
olhos ainda persistem em mim...
Sedas que
seduzem, nessas rimas pobres de quem mal sabe o que escreve, eles e seus
efeitos se entrelaçam no interior da minha alma confusa. Tenho esses olhos
dentro de mim: me olham ao mesmo tempo em que os vejo. São campos de
concentração para o meu pensamento. Navego nessas ondas de otimismo e de
tristeza que seu encarar me provocam.
Tenho a fé
na incerteza... e fé na incerteza.
Tenho o sono
pesado dos que trabalham pouco... porque, para mim, o trabalho pesado dá ao
espírito a certeza de que os membros, o sangue que circula, os ossos que
firmam, têm uma utilidade além da moral, além da vida. Trabalha-se pela própria
necessidade de garantir a perpetuação da própria vida. Não a vida de si
mesmo... Mas da Vida, esse ente incompreensível que soma a todos na inexorável
existência de todas as coisas: morte, ar, terra, pleno devaneio de prova do
divino (em que não creio...) e do terreno (que sempre me espanta...)
Derramo meus
dias nos entreveros inquietantes de distúrbios insanos.
E não sei mais sobre o que escrevo.
E não sei mais sobre o que escrevo.
08 01 2014

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