8 de junho de 2014

Prometi...



Prometi a mim mesmo o silêncio sagrado como prêmio. E isso conta muito de mim: quebro promessas, descumpro minha palavra, tão tosca essa quanto seu próprio autor. Não tenho o caráter dos antigos e nem a consciência tranquila do ladrão.

Por isso escrevo. Não que eu seja um retrato de quem quer que seja, mesmo eu.

Ainda cego de mim mesmo, tenho a crença (cega também, como tudo em volta...) de que ninguém saiba com certeza (essa fruta insossa...) o que é que venha a ser ou seja.
E venho falar de olhos...
Do peso e dos mundos que abrem, correntes que despedaçam, destinos que mudam.
Corações que partem...
Reduzo à tinta ou pixels ou que elementos formem (talvez, em alguém, sentimentos...) os dias dos quais não mais tenho interesse em recordar. E que convivem constantemente em meu sangue, agora frio, e em meus olhos sempre cansados e nervosos, em seus múltiplos sentidos.
No momento não tenho a convicção de fim, tampouco sonho com recomeços. Não há definições em quem morre ou em quem sonha.
E escrevo percebendo que é uma forma de manter, em mim, a grave moléstia a que chamam esperança, essa deusa dos olhos furados que caminha eternamente ao lado dos trôpegos passos humanos. E, ao mesmo tempo, um dos outros lados de mim diz que tudo é fato consolidado. Como a morte e além desta...
Minhas mãos estão calmas. Controlo minha respiração como no fim de uma longa corrida. E tenho medo de continuar a escrever o que quer que seja e falar das doenças sem remédio, do passado inextrincável e imutável que todos chama de destino (e em que  não creio que exista...).
E aqueles olhos ainda persistem em mim...
Sedas que seduzem, nessas rimas pobres de quem mal sabe o que escreve, eles e seus efeitos se entrelaçam no interior da minha alma confusa. Tenho esses olhos dentro de mim: me olham ao mesmo tempo em que os vejo. São campos de concentração para o meu pensamento. Navego nessas ondas de otimismo e de tristeza que seu encarar me provocam.
Tenho a fé na incerteza... e fé na incerteza.
Tenho o sono pesado dos que trabalham pouco... porque, para mim, o trabalho pesado dá ao espírito a certeza de que os membros, o sangue que circula, os ossos que firmam, têm uma utilidade além da moral, além da vida. Trabalha-se pela própria necessidade de garantir a perpetuação da própria vida. Não a vida de si mesmo... Mas da Vida, esse ente incompreensível que soma a todos na inexorável existência de todas as coisas: morte, ar, terra, pleno devaneio de prova do divino (em que não creio...) e do terreno (que sempre me espanta...)
Derramo meus dias nos entreveros inquietantes de distúrbios insanos.

E não sei mais sobre o que escrevo.


08 01 2014



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