31 de julho de 2014

Alguns delírios de há muitos anos...





I.


Pego o caderno e sonho com que tudo se esvaia: emoção, pensamento, razão. Mas percebo que, mesmo que sonhos fossem realizados, a dor ficaria escondida no fundo do peito, como um machucado podre, purulento.

Tenho o corpo em chagas e a alma em chamas.

Os cães uivam sobre os montes e os dias se arrastam, arrastando-me como a um porco enfiado na lama.

Vivo.

Cada vez mais ao fundo, mais sujo. Tento levantar-me e tombo.

Vejo a chuva prestes a desabar e tenho a esperança de que serei lavado, purificado, sairei daqui...

E é granizo, no começo do temporal, que cai...

Rasga-me o corpo, meu sangue se une à lama que logo tornarei a chafurdar novamente.

Dor, padecer, tristeza, ilusão, sofrimento.

Trabalho, teto, comida, afeto, carinho, compreensão, cama, lazer, amigos, prazer, irmãos.

Amor...

A vida inteira atrás de tudo isso, a vida toda a correr, sempre, à frente de tudo isso.

Sirvo à sociedade com meu trabalho, aceito a idiotia de meus chefes, volto à escravidão. Minha casa está em chamas. Minha comida me faz mal. Recebo a aparência dos afetos. Recebo o carinho que agrada ao ego de quem o oferece. Aparento e aparentam compreensão. Falsa. Nula. Canso-me na cama. Mato-me no lazer. Cego-me no prazer. Tenho facas cravadas por amigos, nas costas, no peito. Todos os irmãos querem ser chefes. O amor vem apenas para dizer adeus. Me enxergou pelo que eu não era. Me matou pelo que me fez viver. Sujo. Escarro. Vermes brancos que devoram sombras.

Meu corpo: um pacote velho. Uma caixa com velhos sapatos guardados. Um presente de um Papai Noel cafajeste. Velho louco que me observa o sofrimento e, talvez, num momento de arrependimento e boa vontade, ou numa maneira melhor de nos atormentar, coloca uma pérola no fundo de um dos sapatos.

Jogo tudo ao mato...

Não quero alma, não quero paz, não quero sabedoria...

Não quero ser um dos poucos a encontrá-las, não as quero querer, não as quero entender, não quero saber.

Não me faria diferença.

Sempre o mesmo lixo, todo o esgoto a céu aberto.

Sofrer por amor, não ter amor por quem sofrer, não ser, não ter motivo.

Trocar minha vida pela vida de outros e sofrer por não ter a chance de fazer mais. Desistir da vida e sofrer por ter suportado sofrer por tanto, calado, e não ter desistido antes. Ganhar a vida de alguém e sofrer por seu sacrifício.




II.


Um leão. Uma ovelha. Um lobo. Três disfarces.

Um louco. Um riso. Um sacrifício. Vitória na derrota. Derrotado com o triunfo.

Auto sacrifício, chama a clarear o dia, apagando-se com o frio da noite. Sem corpo para sentir, querer sem saber o quê, inveja, poder.

         Banquete apreciado.




III.


Um águia voa no céu do crepúsculo, esconde-se nos montes, medita sobre o mundo que vê e do qual nunca será parte. Procura a si mesma e nunca encontra-se: sabe apenas que pertence a si, sem contudo ser de si. Cala-se. Silêncio. Odiada pelos outros pássaros. Adorado, mas distante dos iguais. Sente a inveja, sente o vento, o céu, o tempo. O que é esta águia? O alvo ideal. O motivo.

“Derrubem-na e teremos suas asas. Tendo suas asas, voaremos como ela. Voando, seremos eternos.”

Como derrubá-la?

“Pelo coração.”



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